Não vale a pena ficar triste com isso, mas há magias que desapareceram da minha vida.
É verdade que outras coisas, também mágicas, as vão substituindo. No entanto, fico com saudades, porque sei que se alguém tirasse uma fotografia ao meu olhar quando as vivia, a expressão seria aquela que gostaria de ver em todas as pessoas.
A tela mágica da minha infância, recordo-o hoje. Nas manhãs de domingo de um tempo em que a televisão era a preto e branco. Sim, isso. Num tempo em que, protegido, a dedicação à aprendizagem e descoberta ocupava a maior parte da minha energia.
A tela mágica em que vilões e heróis eram colados, cheios de cor e de aventuras. O flanelógrafo, meio de comunicação à parte de tudo o que conheci, era uma superfície de flanela, onde eram coladas, com velcro, acho eu, figuras de papel impressas a cores Figuras estáticas que entravam e saiam pelas mãos do professor, ou professora, da Escola Dominical na Igreja Baptista da Amadora nos finais da década de setenta.
Sentado em cadeiras anãs, eu sorvia as palavras acerca de José, com a sua capa multicor, a peça de vestuário mais bela que alguma vez já vira. Os irmãos invejosos, o sangue aspergido na veste, as espigas, as vacas magras e, por fim, o perdão.
Durante esses momentos, o tempo deixava de existir e, afinal, o que pode ser melhor do que isso?
Não o sabia, mas a minha imaginação era despoletada de um modo definitivo. Uma espécie de abre-latas, a fazer sair o abstracto, o preenchimento dos espaços em branco entre cada cena.
Sinto falta do flanelógrafo que contava as histórias bíblicas.
E sei que hoje, se o que gosto mais de fazer na vida é contar histórias, devo-o em grande parte à tela mágica e ao livro onde ela ia buscar os enredos. A eles e à minha mãe, mas isso são outros quinhentos...
Quarta-feira, 30 de Abril de 2008
Razões
em
9:13
por
Joao Leal
Etiquetas: interacções
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)
5 comentários:
A túnica de José é, definitivamente, um ícone das classes de crianças da Escola Dominical da era do flanelógrafo. Ainda hoje perante um casaco às riscas coloridas a ligação à túnica é instantânea.
Que lindo poste João!
Conforme lia, estava a ver claramente essas cenas passadas.
Senti até alguma nostalgia...
Olha, sabes, na Igreja das Boas Novas, o Flanelógrafo com as figuras coloridas, acaba de ser "ressuscitado"...
Uma Professora acabada de chegar...viu-o lá e ficou encantada com ele.
Até fiquei muito contente.
Quantas vezes eu o usei!
Olha o quanto valeu guardar tudo aquilo bem guardadinho até hoje!
Beem...eu já nem me lembrava disso...é verdade, também na minha classe havia 1 flanelógrafo verde garrafa (gostei do nome técnico), que para mim era sofisticadíssimo. E nós ficávamos completamente "vidrados", sem desviar a atenção das histórias...ainda hoje "vejo" na minha cabeça a imagem do José do flanelógrafo...tinha caracóis pretos... :)
Já nem me lembrava disso!!! Agora fizeste recordar-me desses tempos com nostalgia... Obrigado João
Ai o flenelógrafo... e os sacos de plástico transparente cheios de guloseimas sortidas na festa de Natal... e quando a classe dos júniores tinha uma participação...
Ahhhh saudade...
Enviar um comentário